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O POVO KARUSKIANO
por Noel Ulvaeus



A cidadã brasileira Karin Schwarz é uma democrata atuante. E a artista [Karin Schwarz] é mais, porque PRECISA ser mais, porque a vida imita a arte e não o contrário: sua arte é seu povo e cada uma de suas obras [é] um cidadão. A liberdade é luta ideada com intransigência. A DUALIDADE presente em Karuska é aquela [mesma] entre a mão machucada do escultor e a delicadeza [final] da escultura, é tropical, quente. Quantas vezes, talvez todas, a paz não se conseguiu com a guerra? A liberdade é conseguida com a luta. A ave sai da gaiola e voa em paz (liberdade), mas bate vigorosamente (em luta) as suas asas. As formas geométricas em Karuska, as lógicas, os arranjos matemáticos, que em si seriam de uma dureza quase feia, são a luta pela beleza, pelo amor, pela estética orgânica e livre que sustentam. Karin Schwarz (democrata) também é Karuska (esteta) e é ambas ao mesmo tempo. Nas obras de Karin o tempo é mostrado como uma foto de vários quadros. Não há desenrolar de tempo. Passado, presente e futuro estão dispostos juntos a claras vistas. A mão suja e machucada do escultor se alimenta da beleza da escultura e a beleza se alimenta da mão suja e machucada. Tudo ao mesmo tempo. Esse é, talvez, o espírito (medula psicológica) do trabalho da artista Karin Schwarz.

O objetivo de Karin é a beleza. Este alvo [objetivar a beleza] é o SIGNIFICADO de suas obras. É a expressão do que se busca e se consegue. É a luta vitoriosa. O êxito logrado. Não é, portanto [em minha humilde opinião], a BELEZA todo o conteúdo de uma Digigravura Karuskiana, como alguns grandes [aos quais respeito muito], em fortes elogios, já chegaram a proclamar. Sequer é [a beleza] o mais importante. Cada obra de Karin Schwarz possui, agrupados em um único quadro, história, cronologia, tempo. Algumas nos oferecem um roteiro que pode ir desde o conflito inicial até o clímax e resultado final e [algumas] outras concentram numa emoção todas as fases da história que contêm. Mas sempre, e esse é um traço notável [da obra de Karin], a história estará lá criando a estrutura que a beleza precisa para ser [segundo Karin] o que deve ser: Bela.

A beleza são o prazer, o amor, a satisfação, a plenitude, Deus. [A beleza] É o que se deseja, seja lá o que for. É o objetivo, é para onde se caminha... Pelo que se luta. Mas o objetivo não existe sem o caminho e vice-versa. Não pode haver a beleza sem a luta. Karin Schwarz apresenta mais que a beleza. Apresenta a satisfação de um desejo.

[Em Karin Schwarz] As cores precisam combinar em harmonia plena, mas devem sugerir que houve um caminho para se chegar a essa plenitude, a essa beleza. As formas devem ser orgânicas e harmoniosas, mas guiadas de modo sistemático. A satisfação pode existir, mas requer trabalho. Assim, a suavidade, para existir, precisa de método e disciplina. Aprendizado. Karin Schwarz estudou exaustivamente a técnica que utiliza. Iniciou o desenvolvimento de sua metodologia no ensino médio e o aprimorou na faculdade. Depois tornou-se uma autodidata minuciosa (softwares de imagens, espectros eletromagnéticos, socialismo). Impôs a si [mesma] a tarefa de, seguindo uma rigidez quase militar, atingir tecnicamente em suas obras a idéia de LIBERDADE [como um valor]. E a estética alcançada é sublime e [não perfeita] é real. ALUDE o sonho, o ideal, mas se livra da IMPOSSIBILIDADE e se atém ao chão. Não pretende tangir o inalcançável. Ao contrário, esforça-se em atingir a liberdade e a beleza pela via da verdade. Insurge-se contra a beleza fácil, simétrica e artificial e propõe [impõe] a idolatria da máxima beleza possível, a beleza real [do acaso, de Deus]. Para Karin a verdadeira beleza não pode ser mostrada, apenas vista.

Eu, neste livro, não poderia deixar de seguir os ditames desta artista tão segura e confiante [com razão] e pôr-me a citar uma série de personalidades relacionadas às artes visuais, pintura digital, filosofia, socialismo. Não me poderia permitir este desfeito. Deixo a critério do leitor que [querendo] pesquise [Marx, Zenão, Nietzsche, Kandinsky]... A obra desta artista é, por natureza, contestadora, rebelde e insolente. Não seria de bom grado escolher, eu mesmo, frases e pensamentos das ditas “figuras reconhecidas” (por quem? Como diria Karin...) para tentar situar o trabalho da artista.

Cada uma das séries apresentadas neste livro traz, com mais ou menos intensidade, determinadas tendências e características presentes em todo o trabalho artístico-filosófico desta fascinante artista americana [do sul]: 

Obs.: Sempre que se tenta dividir os trabalhos de um artista em grupos ou coleções se cometem erros, e aqui não será diferente. Tentarei fazer uma divisão baseada, principalmente, nas inspirações, nas circunstâncias filosóficas propostas e nos conteúdos psicológicos presentes. Peço perdão ao leitor e, sobretudo, à artista, por eventuais discordâncias (e até mesmo discrepâncias) encontradas aqui...

Em Bárbaras Garotas e Espectros de Lesbos a beleza é o prazer, a paz. A luta são: no plano abstrato, os conceitos pré estabelecidos, a necessidade de se abster de valores. No plano físico, a carne, o peso, o corpo.

O que se vê em Florais e Moda e Corpo é a beleza [a estética], sofridamente buscada no que, [em princípio] seria [indiscutivelmente] belo. Há a forte necessidade de transfigurar a beleza padrão (mulheres belas, flores) e CONCERTAR-lhes a beleza. Há a necessidade de apresentar a REAL beleza constante da beleza tradicional, acabando com esta última. É o preconceito que cai por terra dando lugar à liberdade de interpretação do que seria o Belo.

Os Geométricos são uma apresentação da matemática e da especialização técnica de Karin. A luta [pela liberdade] está fortemente demonstrada nestas obras. É como se estivéssemos na fase da guerra. A Paz ainda não veio e sua beleza estética apenas pode ser vislumbrada dentre as linhas duras da guerrilha. A esperança. A promessa presente em cada batalha (em cada obra). Trata-se de obras que representam puramente a luta e a esperança do lutador fiel que, embora não tendo atingido o objetivo, o imagina com exatidão.

Em toda a série Topografia do Espectador e também nas Viagens Alucinantes Karin nos brinda com um CLOSE do guerreiro lutador. É o ser que deseja a beleza, a paz. Aquele que observa e analisa o alvo. É o ser vivo (humano ou não) lutando pelo que lhe faz vivo. É sua face mais verdadeira. E sua expressão demonstra, ao mesmo tempo, a disposição para a guerra e o desejo de Paz. É a face de Karin. Sua expressão, seu espírito.

Orgânicos e Trios tratam de fases da artista em que ela se volta para o transcendental. A luta, a vitória, a beleza, o físico são questionados. A morte é vista como uma realidade. É uma fase madura, onde o real se apresenta da forma mais crua. O fim não é possível para uma consciência (dizia Sócrates). O que há então? Trata-se do encontro da artista com a responsabilidade da artista. E dar respostas não é possível. Pode-se apenas sugeri-las.

Continuando minha inconseqüente divisão, falarei sobre as obras constantes em Miscelânea. São Digigravuras em que a artista, democrata e sedenta de justiça e liberdade, atesta que a diferença, a individualidade e a liberdade de ser o que se é, são IMPRESCINDÍVEIS. As doces curvas e cores. A textura suave e a intrigante junção entre elementos matemáticos e orgânicos são como vida. Têm existência própria. Liberdade. Daí surge a necessidade de se sobressaltar das séries propostas determinados elementos que se diferenciam dos demais, sem se afastarem do grupo. São talvez líderes, talvez excluídos sociais, talvez artistas, no povo Karuskiano.

Ademais, todo o artista é assim... um mundo, uma nação. Suas obras são sempre um povo a ser observado, devorado e consumido. Ser artista é abdicar. É servir. É se dispor a fornecer [a quem tiver coragem] conceitos, idéias, ideais. Se entregar à crítica e com ela sofrer, morrer, crescer. Viver.


Noel Ulvaeus
2005

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Noel Ulvaeus é filósofo e crítico de arte.
fonte:
[texto de apresentação do livro de arte "Espectros" de Karin Schwarz]

Exposição Virtual

"BÁRBARAS GAROTAS"

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