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A GRAVURA
por Carla Petrini


A gravação é provavelmente a mais antiga forma de expressão artística do homem. Os habitantes das cavernas, já faziam incisões sulcando com utensílios pontiagudos de pedra superfícies rijas e as paredes de sua habitação. Provavelmente esta era a forma encontrada para suprir seu desejo de se apropriar, revelar e documentar o universo onde estavam inseridos, ou simplesmente a maneira usada para se expressar. Este gesto de gravar criou uma forma de linguagem com características diferentes das outras técnicas de expressão artísticas, como o desenho, a pintura e a escultura. Nestes primeiros tempos da organização social humana, dos primeiros centros urbanos, estas formas gravadas tornaram-se meio de multiplicação de textos e imagens. 

A evolução das técnicas e o conseqüente aprimoramento dos meios de reprodução são reflexo da necessidade de se atingir sempre um maior número de pessoas. 

Desde as gravuras em madeira (xilogravuras) da ldade Média aos modernos meios de reprodução da atualidade, há um constante aperfeiçoamento técnico que reflete cada estagio cultural destes períodos. Mas a técnica por mais apurada que seja, é e será sempre um mero instrumento e seu valor artístico dependerá única e exclusivamente da mão que usa tal instrumento. 

A gravura tem alcançado maior popularidade nos últimos decênios. Arte de minorias passou a protagonista, raro é o artista que não utiliza suas técnicas, nem Salões de Arte que não contem com uma sessão dedicada à gravura e às diferentes técnicas de impressão. 

A gravura pressupõe a idéia de se obter vários trabalhos originais de uma só matriz ao invés de se executar cada original separadamente. Cada gravura é um original e não cópia ou reprodução de uma mesma imagem. Neste caso o objeto gravado não é a obra final, mas sim o meio pelo qual ela será produzida. 

Partindo da matriz, para chegar-se à obra final, é necessária a prática de mais um ato; o da impressão. Este ato leva à cópia e esta sim é a obra final. 

O artista participa de todo o processo ativamente, tanto na elaboração da matriz como no momento da impressão de cada original. A edição final da imagem não precisa necessariamente ser feita pelo artista. Um impressor capacitado pode realiza-la, mas o artista é atuante até a definição da prova considerada boa para o inicio da impressão em série destes originais múltiplos. 

Devemos entender então que a gravura tem dois momentos importantes – o da elaboração da matriz e o de sua impressão. 

Partindo-se do principio da multiplicação de um original, rompeu-se a valorização de obras únicas. O valor da obra não está mais ligado ao fato desta ser a peça única de um possuidor privilegiado, e sim ao seu poder de desdobramento, de romper barreiras. 

Desta forma, outorga-se à gravura, pela sua qualidade de originais múltiplos, o carisma de ser verdadeira arte social e democrática, transpondo barreiras geográficas, sociais e culturais, expressando anseios de povos distantes e diferentes. 

Geralmente se usa a palavra GRAVURA para designar toda forma de impressão de imagens artísticas, mas isto é incorreto, já que a gravura é o resultado da impressão de uma matriz trabalhada na qual tenham sido feitas incisões, como as feitas em madeira (xilogravura) ou em metal (sulcos cavados). Se a impressão se faz a partir de desenhos realizados sobre pedra (litografia), ou sobre telas de seda ou nylon (serigrafia), nas quais não se fez quase nenhuma incisão, o resultado da impressão denomina-se estampa. 

O surgimento dos processos de impressão mecânicos, da fotografia e em conseqüência, da fotogravura, procedimentos que permitem a impressão de um número ilimitado de cópias, pareceu marcar o final da era da gravura. Mas, ao contrário do que se chegou a pensar, a aparição destas técnicas mecânicas de impressão liberou definitivamente a gravura e a estampa da pesada carga de mera ilustração, registro, documentação ou cópia de uma obra qualquer, e desde então gozam de uma liberdade total de criação. Passaram para a categoria de arte pura, titulo que gozam atualmente.


A Impressão 

Cada matriz geradora da imagem final vai designar um tipo de impressão diferente - impressão plana, impressão por permeação ou estêncil, impressão por relevo, impressão por entalhe e impressão digital, e conseqüentemente denominações diferentes de gravuras. 

A técnica de impressão em que se usa um tipo de matriz com a qual se pode tirar uma só cópia, chama-se monotipia. Monotipia é o nome de uma imagem única, que se obtém pintando sobre uma placa de vidro, metal, fórmica ou outro material rígido, e sobre a qual se comprime o papel. Neste caso a matriz tem vida efêmera, pois se desfaz ao produzir um único exemplar, já que transfere toda sua substancia para o papel, reproduzindo uma única imagem. 


A LITOGRAFIA, do grego lithos (pedra), utiliza-se de uma pedra (um calcário), como matriz e da impressão plana como processo de multiplicação da imagem. 

Na impressão plana, as partes entintadas e as não entintadas ficam no mesmo nível do papel. A matriz não tem saliências nem depressões. É plana. A separação entre as zonas de desenhos e as de branco se obtém por um fenômeno químico: a repulsão entre a gordura e a água. 

O principio da litografia baseia-se nesta repulsão e incompatibilidade entre água e gordura. 

O artista cria sua imagem sobre a matriz calcaria utilizando-se de um material gorduroso, como um crayon litográfico. 

Esta matriz depois de trabalhada com o material gorduroso é processada quimicamente, separando-se as áreas que foram desenhadas das que não foram, para que estas áreas trabalhadas aceitem a tinta de impressão que também é gordurosa. 

A composição química que fixa a imagem na pedra é uma mistura de ácido nítrico, água e goma arábica. 

A tinta litográfica é oleosa e ao ser aplicada com um rolo de impressão sobre esta matriz processada quimicamente, vai aderir-se somente ás áreas gordurosas do desenho. As áreas não trabalhadas, fixadas pela solução acidulada, ficam umedecidas rejeitando a tinta. 

A matriz colocada sobre uma mesa coberta então com o papel que receberá a impressão da imagem, desliza sob a pressão vertical de uma trave chamada “ratora”. 

Na litografia, o fato da imagem da matriz ser processada quimicamente, possibilita o uso de uma grande variedade de instrumentos que até este momento não eram empregados em processos gráficos, tais como a pena, o pincel, o crayon, etc. 

Recentemente utiliza-se também além da pedra, pranchas metálicas de zinco. 

Depois da introdução da fotografia neste processo, inauguram-se os modernos meios de reprodução de grande tiragem. O off-set teve sua origem na litografia. 

A litografia difere dos outros processos de gravação, pois não existem relevos, cortes ou incisões na matriz. O que existe em sua superfície é a imagem trabalhada como um desenho e fixada quimicamente. 


A SERIGRAFIA ou SILKSCRENN utiliza-se de uma matriz feita de tela de nylon, seda e até metal, esticada em um bastidor ou chassi de madeira. 

Sua impressão é por permeação ou estêncil, ou seja, a tinta chega ao papel atravessando a trama da matriz. 

A imagem passa para o papel quando a tinta é forçada por um rodo de borracha a passar através da tela. 

A delimitação das áreas que serão impressas é feita vedando-se ou não a superfície da tela com uma película. Esta vedação pode ser feita de duas maneiras: 

1. por recorte da película transparente, onde as partes que serão impressas, ou seja, que deixarão a tinta passar, deixam a tela vazia ou aberta. E as que não serão impressas, ou seja, não permitiram que a tinta passe ficam bloqueadas por esta película. 

2. por processo fotográfico, onde a matriz é sensibilizada com uma emulsão fotográfica. É feito então um fotolito da imagem, que é colocado sobre esta matriz emulsionada e os dois são levados à exposição de luz. Onde não existe o desenho, a emulsão endurece e impede que a tinta atravesse a tela durante a impressão. Onde havia o desenho, a tela fica livre para que a tinta passe, indo atingir o suporte. A matriz funciona, portanto como um molde, uma máscara. 

Existem testemunhos de impressão por permeação desde a Pré História, onde nas paredes das cavernas podemos encontrar impressões negativas de mãos que foram feitas soprando-se tinta sobre mãos de verdade que, apoiadas na parede, serviram de máscara ou molde. Os japoneses e chineses usavam esta processo para imprimir sobre tecidos e papéis decorativos. 

A serigrafia sempre teve grande uso comercial, como por exemplo, a impressão de rótulos e cartazes. A introdução dos métodos fotográficos a partir de 1950 faz com que seus recursos expressivos aumentassem. 


A XILOGRAVURA utiliza uma matriz de madeira para a gravação da imagem. Sua impressão é a relevo. 

O trabalho de gravação é realizado diretamente sobre esta matriz de madeira utilizando-se de instrumentos de corte como as goivas, as facas, o formão, os buris. 

Divide-se em xilogravura de topo e xilogravura de fio. 

Na xilogravura de topo, a madeira entalhada é cortada transversalmente ao tronco da árvore, ou seja, é um disco de madeira. 

Na xilogravura de fio, a madeira é cortada no sentido dos veios da árvore, longitudinalmente. É uma matriz mais fácil de ser trabalhada, pois não apresenta muita resistência. O artista utiliza-se das goivas, das facas e do formão. Sua linguagem é muito mais a de uma linha negra de contorno, com grandes áreas lisas contrastadas. 

Na xilogravura de topo, as goivas são substituídas pelo buril, originalmente destinado ao trabalho no metal. A matriz apresenta uma resistência maior ao corte. São trabalhos mais delicados, onde se sobressai a linha branca e os nuances tonais a cargo de traços finíssimos e delicados.

Na impressão a relevo, a imagem é transferida de uma matriz que foi sulcada e depois entintada para o papel. 

Ao trabalhar uma placa de madeira para criar a matriz, o artista abre sulcos, entalha zonas, rebaixa partes, extrai, arranca porções do material. Ao término do trabalho, teremos uma imagem definida pelas partes intocadas. 

Por ocasião da impressão, só as partes que permaneceram com a altura original da matriz, ou seja, as intocadas, receberão tinta e a transferirão para o suporte. Em outras palavras, onde o gravador tira o material, a impressão dará o branco do papel, onde ele não toca, dará a cor da tinta. 

A impressão pode ser feita por intermédio de prensa, mas na maioria das vezes é feita manualmente, precionando-se o papel contra a matriz entintada, por intermédio de um instrumento de aço chamado brunidor, por colheres de madeira, “bonecas” de couro ou tecido, rolos de borracha, etc.

No campo da impressão em relevo, podemos mencionar ainda a gravura executada com a matriz de linóleo, uma lâmina de borracha, que pode ser utilizada no lugar da madeira. 


A GRAVURA EM METAL ou CALCOGRAVURA (do grego Khalkòs – cobre), utiliza-se de uma matriz de metal, geralmente o cobre, latão ou zinco. 

Sua impressão é por entalhe. 

Na impressão a entalhe teremos a transferência dos sulcos entintados de uma matriz para um suporte. 

Aqui também ao trabalhar a matriz o gravador abre sulcos, rasga o material, corroí a superfície da mesma com ácidos, mas no final, a imagem será definida pelas partes cavadas. Por ocasião da impressão a tinta se depositará nestes cortes, sulcos e ranhuras e daí, por pressão, se transferirá para o papel. Esta pressão se dá em uma prensa horizontal, onde a matriz apoiada em uma mesa, desliza entre dois cilindros de metal. 

Onde o gravador tira material ou corroí o metal, a impressão dará a cor, onde ele não toca, teremos o branco do papel. Ocorre aqui o inverso do ocorrido na impressão em relevo.

A obtenção das matrizes calcográficas obedece basicamente a dois tipos de processos: os diretos ou mecânicos, onde os instrumentos de incisão incidem diretamente sulcando a superfície polida da placa; e os indiretos ou químicos, onde a imagem é gravada com o auxilio de ácidos, ceras e vernizes. 



Processos diretos de gravação: 


:: Buril 

As gravuras em metal mais antigas foram feitas com buril, instrumento que requer extrema habilidade manual. 

Surge em princípios do séc. XVIII na Alemanha e na Itália, e tem como mestres Dürer, Schongauer, Pollaiuolo, Mantegna, etc. Existem hoje poucos gravadores que se utilizam profissionalmente deste instrumento, sendo encontrados apenas em locais de gravação de papel moeda ou impressão de selos. Um sulco é gravado pela ponta de um buril de aço, que deixa um corte losangular na placa de metal. 0 traço produzido pelo buril varia de acordo com a pressão exercida pela mão do artista que o manipula, quanto mais pressão mais profundo o sulco obtido. Isto vai resultar na impressão a variação da espessura do traço. O sulco é seco e nítido e sua impressão pode ser em negativo ou em positivo (traço em branco ou em preto). 

Pode-se usá-lo em xilogravura de topo, sempre conferindo um traço de grande precisão e de certa regularidade.Existem diferentes tipos de buris, que variam quanto à secção e que resultam na gravação de diferentes tipos de traços. 


:: Ponta seca 

Neste caso, o instrumento usado é uma ponta de material duro e resistente como o aço montado sobre um apoio.É utilizado como se fosse uma caneta. Sua extremidade é fina e ele "rasga" a superfície da placa, deixando neste ato uma fina rebarba de metal nas bordas do sulco gravado, que resultará em uma linha impressa aveludada, característica desta técnica. 


:: Maneira negra ou Mezzotinto 

0 processo da maneira negra utiliza um instrumento chamado "berceau", e se dá em duas etapas:

1)a preparação da placa consiste na movimentação pendular e constante do "berceau”, de uma extremidade à outra, até que esta fique completamente coberta de inúmeras pequenas depressões que resultarão na impressão em uma superfície de um negro profundo e aveludado. (o negro pode ser conseguido também por uma trama de linhas obtidas com a ponta seca) 

2) em seguida, o gravador agirá de modo inverso ao procedimento usual, constituindo as zonas claras a partir do fundo escuro.Com o auxilio de um instrumento chamado "brunidor" (uma peça de aço polido e arredondado nas extremidades) ele vai alisando a textura produzida pelo "berceau" na placa e construindo novamente as luzes. 



Processos indiretos de gravação 
Nos processos indiretos a imagem é gravada com o auxilio de ácidos e os procedimentos são os seguintes: 

:: Água-forte 

Aqui, o mordente substitui a ação direta de se gravar com buril ou ponta seca.A placa é recoberta com uma camada uniforme de verniz, desenha-se sobre esta com a ajuda de um instrumento de ponta que remove esta camada de verniz das linhas trabalhadas, expondo assim o metal.A seguir a placa é colocada numa bacia com mordente (ácido nítrico, percloreto de ferro, mordente holandês), que corroerá as partes expostas do metal que estão sem a proteção do verniz, produzindo o sulco da imagem.Este modo de proceder permite um maior controle da espessura das linhas, que vai ser determinado pelo tempo que a placa sofre a ação do mordente. 

A água-forte pode se desdobrar ainda e muitos outros processos. 

:: Água-tinta 

Tem sua descoberta atribuída a Jean Baptista Le Prince por volta de 1768. Tem como mestres Le Prince, Goya, Chagall, Mason, Picasso, etc. 

Se o buril, a ponta seca e a água-forte produzem essencialmente linhas, a água-tinta permite a obtenção de superfícies regulares de meios-tons e texturas.A placa, como na água-forte é processada com ácido.Ela é recoberta por diminutas partículas de resina que quando aquecidas, fundem-se e fixam-se à superfície da mesma.Neste processo as partículas, ao se fundirem, interligam-se.Quando colocada no ácido, forma-se uma superfície de pequenas depressões, pois este só vai atacar as partes não recobertas pela resina.Estas partes é que reterão a tinta na impressão, formando em seu conjunto uma superfície regular de um tom determinado. 


GICLÉE PRINT é obtida por meio de impressão digital, ou seja, é uma impressão com qualidade artística, produzida em uma impressora jato de tinta especial para tal finalidade. 

A imagem pode ser criada originalmente no computador, ou ser obtida a partir de escaneamento de outro original. Esta imagem é então digitalizada, são feitas as correções de cor e estabelecida a edição. 

Pode-se imprimir cada imagem de acordo com a necessidade, e as impressões podem ser feitas sobre diferentes suportes, como telas ou papéis especiais para aquarela. 

Sobre as imagens impressas é aplicado um verniz de proteção. 

Podem ser tanto reprodução de trabalhos originais que foram escaneados e impressos digitalmente, como trabalhos originais propriamente ditos, como pinturas ou gravuras, criados em computador e com fim neles mesmos. 


Convenções e advertências


· Toda gravura original é numerada e assinada a lápis pelo artista. Convenciona-se a assinatura à direita e a numeração à esquerda.

· Uma edição de gravuras compreende todas as provas numeradas, (a numeração é feita por uma fração, onde o número de baixo representa o total da edição e o de cima o número da cópia dentro desta edição. Ex. 1/50 a 50/50.), além das Provas de Artista (PA), que correspondem geralmente a 10% da edição, Prova de impressor (PI), e Prova de Apresentação (PAP), que destina-se à casa editora da gravura. Todas estas gravuras são consideradas originais, passíveis de comércio. As gravuras designadas (HC), Hors Comerce, não podem ser comercializadas.

· A prova considerada pelo artista pronta para se dar inicio à edição é chamada Boa Para Imprimir (BPI), ou Bom a tirer (BAT), ou ainda Good to Print (GTP).

· Todos os exemplares da edição devem ser rigorosamente iguais. (Mesmo papel, mesma medida de margem, mesma qualidade de impressão)

· O artista determina o número definitivo para o total desta edição, e pode indicar também se foi ele mesmo quem imprimiu as gravuras.

· Édesejável que toda matriz, depois de finalizada a edição, seja anulada, ou tenha uma indicação de que a edição foi completada. Este cuidado evita edições paralelas que fogem do controle do artista.

Toda variação na edição, como mudança de cor, por exemplo, também deve ser indicada.


Carla Petrini
fonte: http://www.gama7.com.br

Exposição Virtual

"BÁRBARAS GAROTAS"

Copyright © 2000/2007 - Karin Schwarz, Curitiba - Paraná - Brasil.
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